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Músicas virais no TikTok: um propulsor ou um problema para a indústria musical?

O aplicativo de vídeos vem sendo alvo de críticas de alguns artistas por serem pressionados a estarem presentes no app. Conheça a trajetória do TikTok e por que ele pode ser o responsável por mudanças no universo da música.

Jun 06, 2022

Você pode não ter muita afinidade com o TikTok, mas com certeza já ouviu falar dessa plataforma de vídeos criativos que vem ganhando cada vez mais popularidade no meio do entretenimento.

Muitas das músicas mais tocadas no momento estão diretamente relacionadas com virais nessa plataforma Por isso, muitos artistas e suas gravadoras passaram a planejar estratégias de como usar o TikTok como fonte de divulgação para suas músicas.

O início e a ascensão do TikTok

A plataforma chinesa foi criada pela ByteDance em 2017. Sua origem aconteceu após a empresa comprar o aplicativo musical.ly, um app de lip-sync (um tipo de dublagem de áudios) que já contava com milhares de usuários, e transformá-lo no TikTok que ficou conhecido no mundo todo.

Com o isolamento provocado pela pandemia do COVID-19 no começo de 2020, a plataforma ganhou ainda mais força entre o público jovem, principalmente na faixa etária dos 16 aos 24 anos. Enquanto todos estavam restritos a ficar em casa, o TikTok proporcionou certa aproximação entre as pessoas com as propostas de desafios, danças e duetos que fazem muito sucesso por aí.

A fama do app também está atrelada à facilidade de “viralização” e crescimento dentro da plataforma, que facilita a entrega dos conteúdos que mais agradam. Sua proposta é fazer com que os usuários recebam e descubram conteúdos dos mais variados perfis de acordo com seus gostos, mesmo quando ainda não os seguem.

Uma pesquisa feita pela Nielsen, encomendada pelo próprio TikTok, mostrou que 60% dos usuários usam o app para descobrir novos conteúdos, sendo que 92% afirmam descobrir conteúdos que gostam. O estudo ainda aponta que 80% dos entrevistados se identificam com o conteúdo que veem na plataforma.

O início da era dos virais do TikTok

Embora outras músicas e artistas já estivessem ganhando certa popularidade através da plataforma, o primeiro viral realmente notável do TikTok foi o hit Old Town Road de Lil Nas X.

Em dezembro de 2018, Lil Nas X lançou a primeira versão da música e deu início à divulgação do que seria seu primeiro sucesso. Inicialmente, a música carregava um propósito cômico e Lil Nas X buscava por um meme viral, com passagens engraçadas e grudentas.

Pouco tempo depois de seu lançamento, a música caiu no gosto dos usuários do TikTok ao ser associada ao “Yeehaw Challenge”, um desafio no qual os usuários se transformavam em “cowboys” ao som de Old Town Road.

Lil Nas X já havia mostrado seu interesse em colaborar com o famoso cantor de country, Billy Ray Cyrus. Felizmente, em março de 2019, seu desejo foi atendido e um remix da música em parceria com o cantor foi lançado.

Em abril, o novo artista estava com contrato assinado e sua música alcançava a primeira posição da Billboard Hot 100 (um dos rankings musicais mais importantes dos Estados Unidos), onde permaneceu por 19 semanas seguidas e quebrou o recorde até aquele momento.

Catapulta de hits e sucessos musicais

No TikTok, quem dita o que viraliza ou não são os próprios usuários, a partir da relevância que determinadas músicas têm quando relacionadas aos modelos de engajamento da plataforma - como danças, dublagens, duetos, POV - point of view (no qual o TikToker simula o ponto de vista de algo ou alguém em diferentes situações), etc.

Para música, o caminho mais óbvio acaba sendo o das dancinhas cativantes. A maioria das coreografias montadas na plataforma costumam ser fáceis de reproduzir, com movimentos que acompanham as batidas e letras, envolvendo principalmente os braços, as mãos e o tronco.

A união entre músicas com batidas marcadas, passinhos de dança, um algoritmo com entrega de conteúdo exponencial e usuários engajados fez do TikTok uma catapulta de sucessos para artistas.

Claro que há também as músicas que viralizaram e não estão relacionadas às dancinhas. Por exemplo Some Thing Abt Me, do Chis, que rendeu uma série de publicações de usuários “se apresentando”. Também foi o caso de Beggin, uma regravação feita pela banda Maneskin, que rendeu diversos vídeos diferentes.

E essa relação entre músicas e os vídeos virais no TikTok não se restringiu apenas à músicas novas, mas também (re)impulsionou alguns hits de alguns anos atrás. Esse foi o caso de I’m Just A Kid, música de 2002 da banda Simple Plan, ou então de Dreams, lançada em 1977 pelo Fleetwood Mac.

TikTok e seu impacto na indústria da música

Seja na forma de divulgação de músicas ou até mesmo na produção delas, o TikTok tem mostrado seu poder de influência no setor.

Um novo espaço para conhecer novos artistas

A plataforma se mostrou como um espaço democrático para artistas de todos os tipos para divulgar seu talento. Entre duetos, covers e remixes, artistas mostram seu potencial em desafios (challenges) e músicas trends, atraindo alguns fãs pelo caminho.

Há também o caso de músicos que engatam algumas composições autorais de artistas que ainda não se mostravam tão conhecidos, como Marina Sena com a sua “Por Supuesto”, ou a parceria de Powfu e beabadoobee na música “death bed (coffee for your head)”.

Mesmo artistas que não viviam no anonimato, mas ainda não haviam alcançado grandes proporções, puderam alcançar novos públicos. Foi o caso de Olivia Rodrigo com seu grande hit “Drivers Licence”. A cantora também ganhou o público ao publicar seu single na plataforma de vídeos.

A pressão da indústria musical por virais na plataforma

Apesar de muitos artistas estarem satisfeitos com os resultados proporcionados pela plataforma, outros estão mostrando seu desagrado com a forma com que o TikTok está influenciando a criação no meio musical.

Grandes artistas como Halsey, Charlie XCX, Florence (vocalista do Florence + the machine), FKA Twig e até mesmo a brasileira Anitta utilizaram suas redes sociais(até mesmo seus perfis no TikTok) para falar sobre a pressão feita por suas gravadoras para que criem “virais” na plataforma.

Anitta falou em uma de suas lives que, hoje em dia, sua gravadora investe e apoia apenas em suas canções com potencial de viralizar na plataforma. Já FKA Twigs, Charlie XCX e Halsey fizeram publicações falando abertamente sobre as demandas por virais do TikTok por parte das gravadoras.

"É verdade as gravadoras só querem saber de tiktoks e hoje me chamara a atenção por não me esforçar muito"
"[como eu fico] quando a gravadora me pede para fazer meu oitavo tiktok da semana"
“Basicamente eu tenho uma música que eu amei e quero lançá-la o quanto antes, mas minha gravadora não permite. Estou nesse ramo há 8 anos, já vendi mais de 145 milhões de álbuns e minha gravadora diz que eu não posso lançar uma música a não ser que eu finja um viral no TikTok. Tudo é marketing.”

A britânica Florence Welch usou seu próprio TikTok para postar um vídeo mostrando a necessidade imposta por sua gravadora, que solicitou que a cantora postasse um vídeo “lo-fi” na plataforma.

Já Ed Sheeran usou sua conta no TikTok para ironizar a necessidade de postar vídeos na rede para promover suas músicas. Ele publicou um vídeo onde comia salgadinho com sua música nova tocando ao fundo. Junto, a mensagem: “quando você deveria divulgar sua música, mas você apenas quer muito comer um salgadinho e então decide que comer um salgadinho pode ser uma divulgação para sua música porque todo mundo ama salgadinhos”.

E não são apenas artistas mais envolvidos com a música pop que se pronunciaram. No Rock, artistas como Mike Shinoda, do Linkin Park, e Oliver Sykes, do Bring Me The Horizon, também falaram sobre como as gravadoras têm dado importância para TikToks e como isso está cansando artistas de todo o mundo.

“Todo artista com quem converso tem esse sentimento (de cobrança por conteúdo em redes sociais). Eles dizem que estão passando tempo demais fazendo pequenos vídeos para impulsionar suas carreiras, mas eles queriam passar mais tempo tocando suas músicas. Como esperar de um jovem artista que ele passe tempo o suficiente ficando bom em sua arte quando ele precisa alimentar todos esses canais de conteúdo? O tempo gasto gerando conteúdo bobo pode estar custando a eles a melhor música que nunca escreveram.”

Internet além da geração Z

Segundo dados do próprio TikTok, a maior parte do público é composta por usuários com menos de 30 anos. A faixa etária que conta com a grande maioria é de 16 a 24 anos. Com essa participação massiva do público jovem na plataforma, públicos de outras gerações ficaram um pouco “esquecidos”.

Antes mesmo que muitos artistas começassem a fazer suas declarações sobre a demanda por músicas que tinham “potencial para TikToks”, a cantora britânica Adele falou sobre o assunto em uma entrevista com Zane Lowe.

Em 2021, quando fazia a divulgação de seu novo álbum 30, Adele falou sobre os pedidos de sua gravadora por músicas para TikTok. Sua resposta foi justamente a lembrança de que há público de outras gerações que também apreciam música e que não (necessariamente) estão presentes na plataforma de vídeos.

Talvez ainda seja muito cedo para entender se o TikTok é um grande problemão para a indústria musical, ou se ele vai se consagrar como um grande portal de aceleração de artistas. Mas como música faz parte do DNA da plataforma, com certeza ainda veremos muitos desdobramentos dessa história vindo por aí.