*Por William Silveira, professor de fotografia da EBAC Online (@williamsilveira)

Para o fotógrafo francês, Henry Cartier-Bresson, uma boa foto deve ser feita em um exato “momento decisivo”. Dentro de todo o movimento de uma cena que se constrói na frente de um fotógrafo, é aquela fração de segundo do ápice daquilo que se observa. Portanto, o fotógrafo deve ser um observador atento, com sua câmera pronta para disparar e captar a imagem perfeita em seu momento decisivo.

Quando Cartier-Bresson cunhou essa expressão, por volta de 1950, não imaginava que 70 anos depois estaríamos diante de milhares de fotos feitas digitalmente por tantos amadores e alguns profissionais. Ou ainda, que nossa sociedade viveria em um constante senso de urgência. Então, se para muitos o “momento decisivo” morreu, arrisco dizer que a última fronteira em que ele ainda tem importância é a fotografia de esporte.

Conexão com a ação e os sentidos

O fotógrafo de esporte deve estar totalmente conectado à ação com os seus cinco sentidos. Se conseguir utilizar um sentido extra para prever certos movimentos e posições, melhor. Mas isso vem com muito treino. Claro que faz uma diferença enorme fotografar um esporte de ação com uma câmera analógica (década de 80) e uma digital Mirrorless (atualmente). Na primeira, um fotógrafo tinha um filme de 36 poses e utilizava o sentido extra para fotografar. Atualmente, algumas câmeras permitem o registro de quarenta ou mais imagens. Ao fotógrafo, cabe saber escolher aquela que mais representa o “momento decisivo”.

De qualquer forma, uma boa imagem ainda nasce da percepção do fotógrafo em buscar a melhor posição, o melhor enquadramento e principalmente o melhor momento de disparar.

Apresento a seguir algumas fotos que registrei, com observações importantes que explicam o olhar aguçado para o “momento decisivo”.

A imagem acima foi feita durante uma regata oceânica. Depois de quase oito horas navegando, percebi que o mar estava bastante agitado. Para aproveitar o movimento das ondas, pedi para que o piloto se afastasse do veleiro. Deu certo e apenas três imagens foram feitas, sendo que esta foi a melhor. Tecnicamente, estava com uma lente de 70-200mm, f/2.8 e velocidade de 1/2000s.

Mais importante que o meu conhecimento técnico, era o fato de que eu tinha como piloto da lancha um experiente capitão, velejador e fotógrafo. Ele sempre nos colocava entre os veleiros de competição e as melhores paisagens. Era minha primeira experiência fotografando vela oceânica. Ter um velejador me ensinando a “ver” o vento me ajudou nos anos seguintes fotografando a competição Rolex Ilhabela.

Não sou fã de futebol, mas confesso que assistir as partidas do Brasil são sempre uma emoção. A imagem aqui, em Brasília durante a Copa das Confederações em 2013, já faz uso de muita tecnologia. Disparei a câmera quando vi o passe para o meia-atacante Oscar. Só soltei o disparador no desarme do defensor. Foram dez fotos por segundo. Entre os trinta registros gerados nos três segundos do ápice da ação, foi fácil escolher o único em que a bola está no lugar da cabeça do jogador do Japão. Lente de 400mm, f/2.8 e 1/2500s de velocidade o obturador.

Não se trata de uma foto importante, mas das pequenas histórias que podem ser contadas caso a partida seja um fracasso total.

Nunca tinha fotografado skate. Foi necessário observar e aprender os movimentos e manobras para escolher uma boa posição.

11 FPS (FPS - frames per second, ou fotos por segundo) e muita proximidade com o assunto a ser fotografado. Deixei de lado as lentes teles de 200 ou 400mm para trabalhar com uma grande angular de 14-24mm com f/stop em 5.6 e velocidade de 1/1000s, mesmo com o risco de ser atingido pelo skate. A lente grande angular me permitiu estar muito próximo da ação, o que nem sempre é autorizado em eventos esportivos. Por isso, atenção às regras da organização do evento que indicam os lugares autorizados para fotógrafos.Quando o evento for aberto, como nesse caso, observe seus limites de segurança.

Além de fotografar a ação, percebi que as sombras no fundo da pista eram interessantes. Decidi então fazer algo mais plástico, como na segunda foto com o atleta de costas e sua sombra projetada no fundo da pista. O alto contraste e a sombra dura foram possíveis pelo horário, meio-dia. Se te disseram para não fotografar neste horário, eu digo: depende do que você quer!

A foto acima foi feita em um evento teste de atletismo para a RIO 2016 com uma lente de 400mm em f/2.8. Ela mostra o exato momento em que a atleta passa milímetros distante da barra no salto em altura. O olhar mostra ela procurando, ainda no ar, a barra para ver se a tocou ou não.

Os melhores resultados são obtidos quando o fotógrafo sabe se posicionar em relação ao assunto e domina os recursos técnicos da sua câmera, como o FPS, tipo de foco e de fotometria, controle de exposição e edição (entenda edição por escolha das melhores imagens).

Mas nem sempre estamos posicionados no momento correto. A sequência de imagens abaixo é do mesmo evento, no Rio de Janeiro, em março, com uma temperatura de uns 34⁰C. O calor era tão intenso que deixei minha posição para buscar água. Não percebi que o final da prova estava próximo (era uma prova longa, quase 30 minutos de duração). Enquanto eu retornava, a prova terminou e a atleta argentina garantiu a classificação para as Olimpíadas. Sem ter o que fotografar, apontei a câmera e percebi que ela e a atleta brasileira (2ª colocada) faziam os mesmos movimentos, quase uma dança. Fui fotografando momento a momento. Perdi a chegada, mas fiz algo que nenhum outro fotógrafo fez: contei uma história paralela. Mostrei um pouco da plasticidade e da dor do atleta.

Em resumo, uma boa foto de esporte é sobre capturar o momento certo, expressando as dinâmicas e emoções daquele momento. Para fazer isso, você precisa, principalmente, confiar na sua intuição, que vai ser aprimorada com a experiência. Ou seja, a melhor dica para ficar bom é começar e continuar tentando.

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