Carreira

“Cultura de startups”: o que é normal e o que passa do ponto

Não param de surgir novas startups por aí, o problema é que muitas empresas têm práticas abusivas disfarçadas na relação de trabalho. Veja como diferenciar
Nos últimos anos, temos visto um aumento significativo de empresas nos ramos de tecnologia e publicidade. E o atrativo dessas empresas, muitas vezes, fica por conta dos benefícios diferenciados:
Espaço para lazer, lanches à vontade, horários flexíveis, modelo de trabalho horizontal… São diversas vantagens que você não encontra em uma empresa mais tradicional.

“A possibilidade de horário flexível, home office, menos burocracia nos processos, horizontalidade hierárquica e, sobretudo, uma identidade própria da marca empregadora”, explica Valéria Resende, especialista em recursos humanos e headhunter . 
Em oposição, o modelo tradicional tem como algumas das características mais marcantes, setores mais individualizados; não há um espaço para lazer; a relação entre chefe e funcionário é  mais formal  e tem uma hierarquia e horário de trabalho mais fechados.
“As empresas criam essas estratégias para o trabalhador se sentir parte, mostrar uma vantagem enquanto marca empregadora. Mas é preciso cuidado para não cair nas armadilhas, uma vez que quanto mais a pessoa se sente à vontade, mais ela trabalha”, diz Valéria. 
Você já deve ter se deparado com alguns anúncios de vagas que dentre as características descritas, a empresa frisa que não existe dress code ou servem frutas a todos os funcionários (ou qualquer coisa do tipo), pois mostra uma vantagem competitiva, como sendo um ótimo lugar para trabalhar.

“Faz parte da cultura de startup fazer com que o colaborador se sinta valorizado, à vontade, mas temos que tomar muito cuidado com isso, pois vejo que incentiva o excesso de trabalho. Quando há um bar no trabalho, por exemplo, a vantagem é que as pessoas poderão interagir entre elas de forma descontraída, mas o profissional permanece ainda mais tempo na empresa. Além do horário de trabalho, as horas de lazer também serão lá.”

Os dois modelos têm suas vantagens e a cultura de startup acaba sendo mais atraente para aqueles que se dão melhor com menos rigidez.

Veja algumas dessas armadilhas mais comumente observadas e porque elas não estão corretas:
“Pagamos menos porque somos uma startup”
O site Glassdoor fez um levantamento, publicado no site ValorInveste, da média salarial praticada por Startups e por grandes empresas.
No geral, o que se observou é uma diferença bastante considerável entre os salários praticados, conforme a imagem ao lado.
A justificativa de que isso é feito “porque são uma empresa que está começando” é o problema porque não há compreensão mútua. Ou seja, muitas empresas oferecem salários baixos mas ao mesmo tempo exigem do candidato uma experiência de alguém extremamente experiente.
Startups que oferecem remuneração abaixo da média podem ser uma ótima opção para quem está começando na carreira desenvolver experiência, mas é preciso ter essa compreensão do contratante.
Horários irrealistas
Uma vez superada a questão de dinheiro para as empresas, existem expectativas desagradáveis (e até mesmo ilegais) sobre quanto tempo os funcionários devem se dedicar.
Ravi Handa, fundador de uma empresa da índia, explicou em seu site que, quando o fundador de uma startup de bilhões de dólares chamada Zomato foi questionado sobre por que os seus programadores deveriam permanecer no escritório das 8h30 às 20h, sua resposta foi: “Você deve acreditar no que estamos fazendo ou ir embora. Não forçamos as pessoas a trabalhar aqui se não quiserem.”
Como fundadores de um negócio próprio, muitos CEOs dedicam uma grande parte dos seus dias a fazer o negócio dar certo e, por isso, esperam o mesmo dos funcionários. 
Mas é preciso entender que se dedicar a um projeto pessoal é diferente de se dedicar a um serviço para o qual você foi contratado. Eles estão contratando o seu trabalho de 8 horas diárias e não a sua devoção 24 horas.
“Se você se sente ansioso no seu momento de descanso, sentindo que deveria estar trabalhando, isso é um sinal de alerta”, diz Valéria.
Práticas ilegais “porque somos uma startup”
Para fugir de alguns impostos, muitas das startups optam por contratar pessoas no regime de Pessoa Jurídica, o famoso “PJ”.
Essa é uma prática permitida na lei mas com algumas limitações. “Uma contratação PJ não pode exigir as mesmas coisas de uma contratação CLT, mas não é o que vemos na realidade”, diz Valéria. Por exemplo, o contratado PJ não pode estar exclusivamente dedicado à empresa em uma horário definido de 8 horas diárias, como se fosse um contratado pela lei de CLT.
As empresas sabem disso, mas ainda exigem essa prática, que é ilegal.
Prazos curtos demais
Muito desse comportamento acontece porque algumas dessas startups não são criadas necessariamente por pessoas do ramo, mas por empresários que nunca trabalharam com aquilo, então muitos não entendem como o trabalho de edição de vídeos ou de programação, por exemplo, funciona, exigindo prazos super apertados para a entrega do trabalho.
Por isso, é importante ter nessas empresas, especialmente na liderança do atendimento, que vai lidar com o cliente, uma pessoa que entenda dos processos e que saiba dar prazos realistas ao cliente.
Se você não quer lidar com essa prática abusiva, antes de aceitar um emprego em uma startup, procure saber mais sobre as pessoas que ocupam esses cargos de liderança.
Busque sobre a experiência deles no LinkedIn para ver se eles são pessoas que entenderiam as horas que precisam ser dedicadas a uma certa tarefa.
Feedbacks humilhantes
Gritos, xingamentos… Isso infelizmente tem se tornado cada vez mais comum em algumas empresas menores.
Não que isso não aconteça nas maiores, mas, até pela estrutura, empresas grandes costumam contar com um time jurídico que instrui os líderes dos departamentos sobre como lidar com os funcionários, a fim até mesmo de evitar processos trabalhistas por abuso.
Isso não significa que você tem que esperar apenas elogios ao seu trabalho. Desempenhos abaixo da média devem ser enfrentados com feedback honesto e profissional, até mesmo para oferecer espaço para crescimento.
“Em uma empresa que não tem departamento de RH ou jurídico, você deve sempre levar essas reclamações ao seu superior. Porém, é um risco porque você pode sempre sofrer represálias, mas eu recomendo sempre colocar seus limites”, finaliza Valéria.