Audiovisual
Edição de Filmes: um bate-papo com Duda Izique e Jair Peres
A edição de filmes também é conhecida como a “arte invisível”. Quando assistimos a um longa ou curta-metragem, não percebemos logo de imediato o incrível trabalho desenvolvido pelos editores de filmes. Porém, somos facilmente capturados pela habilidade destes profissionais em contar histórias e criar narrativas envolventes.

Resumidamente, a montagem ou edição de filmes é a arte, técnica e prática de montar cenas numa sequência coerente à uma trama proposta. Neste sentido, a missão de um editor(a) de filmes não é simplesmente reunir mecanicamente pedaços ou trechos de uma película ou apenas editar cenas. Nada disso! Este(a) profissional lida imaginativamente com as inúmeras camadas de imagens, histórias, diálogos, músicas, ritmos, bem como as performances dos atores de um filme para efetivamente organizá-lo ou até mesmo “re-imaginá-lo”.
A fim de concretizar este objetivo, o editor de filmes necessita da construção de repertório por meio de referências artísticas, do domínio de ferramentas de edição e muitíssima criatividade. Para melhor compreender o papel deste profissional, conversamos com os professores do curso online de Edição de Filmes da EBAC, Duda Izique e Jair Peres. No bate-papo que tivemos, Duda e Jair nos contam sobre as principais habilidades que um editor de filmes precisa desenvolver, dividem conosco a percepção sobre o mercado atual e dão até um palpite sobre o ganhador do Oscar de melhor montagem deste ano. Leia a entrevista na íntegra a seguir:
Atualmente, vemos a ascensão de séries brasileiras lançadas em serviços de streaming, “Cidade Invisível” do diretor Carlos Saldanha lançada na Netflix é um belo exemplo. Como vocês veem este cenário de oportunidades para quem quer trabalhar com edição de filmes?

Duda Izique: O sucesso que as séries brasileiras têm feito tanto no Brasil quanto no exterior é consequência direta de um processo de profissionalização da nossa indústria do entretenimento audiovisual que passa não só pelos grandes players de streaming, mas também pelos canais de TV a cabo e cinema. Esse "boom”, por outro lado, revelou que ao mesmo tempo que se investiu muito em produções, não se investiu em capacitação e formação de profissionais nas mais diversas áreas. E a edição é uma delas. Por isso a maioria dos editores tem trabalhos fechados muitas vezes para mais de 1 ano, e produtoras levam muito tempo para encontrar profissionais disponíveis para trabalho. E é claro que o nível de exigência delas é muito alto. Não basta alguém que saiba operar o programa, mas alguém que pense em narrativa.

Jair Peres: Fruto de um processo árduo de profissionalização do audiovisual brasileiro, o aquecido mercado tem dois lados: as produções de cinema, séries, programas de TV a cabo, oferece possibilidades de trabalho para editores, como nunca se viu antes. Porém, o nível de exigência profissional aumentou exponencialmente e quem estava melhor preparado conseguiu encaixar-se melhor neste novo cenário.

A formação técnica abrange muito mais que a operação de softwares de edição. É necessário um conhecimento profundo de narrativa, ter conhecimento de fundamentos e técnicas cinematográficas e acumular muita prática para encarar a complexidade narrativa de séries produzidas aqui por plataformas de streaming como Netflix, Amazon Prime, Disney + e Globoplay.
A edição faz parte do processo de pós-produção dos filmes. No entanto, frequentemente também é associada a um processo artístico. Dá para dizer que edição de filmes é técnica e poesia ao mesmo tempo?

Duda Izique: Hoje em dia qualquer pessoa com um computador razoável e acesso à internet pode ter acesso a um software de edição e "aprender" a operá-lo. Isso não a torna um editor. Ter uma máquina de última geração, um programa caro e decorar todos os atalhos também não farão diferença. O que torna um editor relevante é sua capacidade artística e criativa. Isso não se compra e não se baixa na internet. E isso só se desenvolve com estudo, leitura e com formação de repertório. 

Jair Peres: Definitivamente a edição é um processo artístico embasado por técnica. Não apenas a técnica no quesito ferramental, cujo acesso a computadores e softwares é mais fácil hoje em dia, mas me refiro a técnica cinematográfica, embasada em fundamentos, aliados a um senso artístico que requer muito estudo, intermináveis horas assistindo o que o cinema produziu de melhor para assim aumentar seu repertório e muita, mas muita prática. Assim você começará a dar vazão as suas expressões artísticas através da edição.
Storytelling hoje em dia é tudo. Como vocês definiriam a força da narrativa na publicidade e no cinema num momento da história em que somos bombardeados por informações 24 horas por dia?

Duda Izique: Na verdade, storytelling sempre foi tudo, mas hoje a palavra está mais na "moda". A gente conta histórias desde os homens da caverna e vai continuar contando independente da tecnologia que tenhamos disponível no momento. Por isso acredito que a força narrativa hoje é a mesma de ontem e a mesma de 30 mil anos atrás. O que muda é a forma narrativa. Para quem vive de contar histórias é fundamental ficar atento a esses novos formatos. O vídeo vertical, por exemplo, que há poucos anos era visto como algo impensado, hoje está presente em comerciais de TV. A linguagem do TikTok e dos stories já invadiram séries de TV e cinema. As inovações vão continuar, mas a importância do storytelling para nossas vidas sempre será enorme, e por isso não podemos nunca desprezar novas formas de narrativa.

Jair Peres: Há uma certa banalização sobre o que é storytelling. É e sempre será o ato de contar estórias. O que mudou ao longo da História foram as mídias. Hoje, com o acesso cada vez maior de pessoas a plataformas móveis e dispositivos, busca-se a conexão com o público a qualquer custo. Porém, quem dominar as técnicas e souber como se comunicar melhor com seu público, independente da mídia escolhida, conseguira o sucesso. A importância da forma narrativa é enorme hoje em dia. Para mim, temos que focar em concisão, conexão e em contar uma estória que valha a pena compartilhar.
Vocês já trabalharam em grandes produções cinematográficas em filmes como "Quebrando o Tabu", de Fernando Andrade, no caso do Jair, entre outros tantos importantes projetos. O Duda também trabalhou com diretores como Bruno Barreto e Karin Aïnouz. Qual é o nível de independência criativa que um editor de filmes precisa ter ao estruturar e montar um longa-metragem? Ele ou ela necessita estar 100% alinhado(a) com diretores, roteiristas, produtores etc.?

Duda Izique: Bons diretores e produtores sabem que não se faz um filme ou série sozinhos. Eles precisam estar cercados de artistas e pessoas talentosas que o ajudem a construir os sentimentos e as sensações daquela narrativa. Mas é claro que esses profissionais precisam estar alinhados com as ideias e ao estilo do diretor ou do produtor. 

Jair Peres: O cinema é uma arte construída a várias mãos. A conexão entre todos é fundamental. Cada um irá contribuir com o seu melhor para que o filme seja o melhor possível. O editor é contratado pelo que ele pode trazer para o projeto. Tanto suas experiências prévias quanto o modo como o editor contrai as narrativas são fundamentais para o sucesso da relação profissional com o diretor e o produtor. Mesmo com tudo alinhado no início do projeto, ao longo do processo, haverá muitas negociações sobre cenas, sequencias ou até alterações da estrutura proposta pelo roteiro e estes momentos dependem de uma sintonia criativa, confiança e respeito, que são construídos dia após dia de trabalho árduo.

Tendo participando de tantos projetos relevantes, vocês sabem dizer quais habilidades ou talentos um montador/editor de filmes idealmente precisa ter?

Duda Izique: São muitas! E essas habilidades (as famosas soft skills), só se desenvolve com muito tempo de trabalho. Fora as óbvias, como conhecimento de linguagem cinematográfica, repertório, conhecer as deferentes formas de roteiro e de narrativa etc., o montador precisa treinar a escuta, o desprendimento e ter muita segurança no que está fazendo. Isso porque se o diretor ou o produtor sentir que você não está seguro, ele não estará.

Jair Peres: O editor precisa dominar a gramática cinematográfica e assistir muitos filmes e séries. Também precisa conhecer as ferramentas disponíveis para editar e principalmente, saber as diversas formas de narrativa (e são muitas). Aliado a tudo isto, o editor precisa ser um mediador de conflitos, interesses, humores, expectativas e saber negociar seus pontos de vista com toda a cadeia decisória em obras audiovisuais. Não, não é fácil ser um editor, mas vale a pena.
"Depende do trabalho que seria editado na ilha deserta".
Pergunta polêmica e que não quer calar: vocês vão para uma ilha deserta e só podem levar Adobe Premiere Pro ou Avid. Qual deles levariam e por qual razão?

Duza Izique: Depende do trabalho que seria editado na ilha deserta. Para projetos de publicidade ou com uma quantidade pequena de diárias, o Premiere. Se for para um projeto de formato longo, como filme ou série de TV, sem dúvida o AVID.

Jair Peres: Eu gosto muito do Premiere e já o utilizei em quase todos os formatos possíveis, mas como devo escolher, eu levaria o Avid. Ele é mais estruturado para qualquer tamanho ou tipo de trabalho e, em uma ilha deserta, eu não quero ter nenhum problema com a ferramenta. O Avid é um tanque de guerra.

A 93.ª cerimônia do Oscar acontece no próximo dia 25 de abril. Vocês têm algum concorrente favorito na categoria montagem?

Duda Izique: Preciso confessar que não assisti aos filmes que estão concorrendo a categoria, mas desde que Bohemian Rhapsody foi contemplado com esse prêmio, vai custar muito para eles reconquistarem alguma credibilidade.

Jair Peres: Dentre os indicados, eu torço para Frédéric Thoraval, por "Bela Vingança”. Ele tem um histórico de filmes de ação e horror e como este é um clássico filme de vingança, tem um plot mais subversivo no quesito editorial, portanto existem mais oportunidades criativas. Frédéric fez um trabalho brilhante conduzindo a estória e subvertendo as expectativas.

Porém o Oscar não é exatamente meritocrático neste quesito, então esta é minha torcida solitária. Acho que o prêmio estará entre "Nomadland" ou "Os 7 de Chicago”.

Qual conselho vocês dariam para alguém que está começando o curso de edição de filmes na EBAC ou que possui interesse em seguir nessa incrível profissão?

Duda Izique: Edição é um ofício, e como tal, não se aprende somente com cursos. Eles servem para a gente poder ensinar conceitos fundamentais, mas a prática é o que leva ao desenvolvimento dessa habilidade. Por isso, vá atrás de oportunidades, mesmo que às vezes você tenha que dar um ou dois passos para trás na sua carreira. Mande seu CV e portfólio (se tiver) para produtoras. Busque um estágio ou uma vaga como assistente.

Jair Peres: Em primeiro lugar eu parabenizo quem busca melhorar a sua formação. Ainda mais em um curso como o da EBAC, que foca em técnicas, fundamentos, narrativa e muita prática. Mas este é o primeiro de muitos passos.

Você deve assistir muitos (bons) filmes, tem que praticar muito e buscar construir um repertório que mostre o que você sabe fazer. Comece como puder em produtoras, agências de publicidade, estúdios de TV. Não importam os sacrifícios que você fará (e eles serão muitos), pode ter certeza de que se você tiver uma boa base, repertório e muita proatividade, você conseguirá galgar os degraus de uma carreira incrível.
#PartiuEdiçãodeFilmes

O mercado de audiovisual na pós-produção de filmes e séries é, sem dúvidas, um setor que vem crescendo rapidamente no Brasil e no mundo. Afinal, nunca estivemos tão conectados e se produziu tanto conteúdo em vídeo como agora, para smartphones, redes sociais, plataformas de streaming e canais de TV.

Portanto, há muito trabalho, jobs e oportunidades de emprego na área, para profissionais que sejam qualificados, claro. Pensando nisso, a EBAC lançou o curso de Edição de Filmes.

Para quem quer aprender a editar conteúdos em vídeo e fazer disso a sua profissão

Você dominará de forma abrangente os aspectos da profissão de montador - de teoria do cinema à prática em programas profissionais. Ao trabalhar com vídeos de diferentes tipos e complexidades, você poderá decidir em qual direção vai querer desenvolver sua carreira.


Nossos Professores: Jair Peres e Duda Izique

Jair Peres é um profissional com mais de 25 anos de experiência em edição de filmes e storytelling. Você já deve ter visto as edições do Jair em grandes produções do cinema brasileiro como "O Cheiro do Ralo", de Heitor Dhalia, "Quebrando o Tabu", de Fernando Andrade, "Crô", de Bruno Barreto e "Morto não Fala", de Dennison Ramalho.


Duda Izique possui mais de 15 anos de experiência, já trabalhou em mais de 40 longa metragens nas principais produtoras do país e com diretores como Bruno Barreto, Selton Mello, Vicente Amorim e Karin Ainouz.