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Game artist: o que é, o que faz esse profissional, o salário e como começar nessa área

O game artist dá vida ao conceito artístico de um jogo e é uma profissão em alta demanda no Brasil

07 de julho, 2022

Um game artist é realmente um artista. Usando softwares de criação e arte digital, esse profissional cria os aspectos visuais e artísticos de um jogo. Do ambiente e objetos aos personagens.

Conversamos com Daniel Rivers, professor da EBAC Online do curso de Artista 3D para games e artista 3D de personagens de games. Ao mesmo tempo em que nos conta como é o trabalho de um game artist, Rivers relembra um pouco da sua trajetória.

A evolução dos games

Pong, da Atari, é considerado o primeiro jogo eletrônico a ter sucesso comercial. Lançado em 1972, o jogo de arcade ou fliperama (um gabinete com um tubo de imagem ou monitor de vídeo) com uma temática nos moldes do tênis de mesa, tinha gráficos bidimensionais e uma premissa simples: usar uma raquete virtual para rebater a bolinha e pontuar mais que o adversário. O primeiro jogador a alcançar os 10 pontos, ganhava.

Com as limitações de processamento e memória dos antigos PCs e consoles, surgiram várias técnicas para simular efeitos gráficos 3D.

Quando a tecnologia desenvolveu hardwares de 16 bits, os gráficos passaram por uma revolução e alcançaram outro nível.

Uma das principais técnicas exploradas nos anos de 1990 foi a sprites: imagens 2D que se moviam pela tela para representar elementos não estáticos, sem deixar um “rastro”. Duas formas de explorar essa técnica se tornaram mais populares:

Digitized sprites: fotos ou recortes de fotos reais eram usados para criar personagens. Um bom exemplo dessa técnica gráfica é o Mortal Kombat.

Screenshot do jogo Mortal Kombat

Parallax Scrolling: a tela era dividida em camadas (layers), que se moviam em velocidades diferentes para criar a sensação visual de profundidade.

Alguns jogos desse período estão gravados na memória afetiva de quem vivenciou essa fase do ponto de vista gráfico, é considerado um marco dos jogos 2D em plataformas de 16 bits.

Uma carreira em games surge

A evolução dos games nesses 20 anos une dois principais pilares: os efeitos gráficos e a história. Mas sem dúvida é a evolução gráfica queconquistou fiéis jogadores e criou pessoas apaixonadas por games. Daniel é uma dessas pessoas.

Game artist há mais de uma década, Daniel relembra que há 12 anos não existiam cursos livres especializados em games e apenas começavam a surgir alguns cursos superiores em universidades.

Ele já tinha o desejo de trabalhar como artista 3D de personagens, mas começou a carreira criando cenários e objetos – chamado de generalista – até conseguir se especializar.

Daniel nos explica que ao passo que a indústria de games foi se desenvolvendo nas últimas décadas, novas funções foram surgindo. No começo dos anos 2000, se um mesmo profissional tivesse a ideia do game, criava o conceito dos personagens e muito provavelmente também iria desenhar os ambientes e personagens.

Com a magnitude que a indústria ganhou, a produção também se modificou e etapas de desenvolvimento surgiram.

O que é um Game Artist hoje e o que ele faz na prática

O game artist surge dessa necessidade do mercado de ter um profissional especializado em uma das etapas de criação de um jogo. Eles desenvolvem ambientes, objetos, personagens e efeitos visuais a partir do briefing conceitual do concept artist – os verdadeiros responsáveis por criar o conceito artístico do jogo.

A partir do roteiro do game e storyboards (uma série de ilustrações que seguem uma sequência cronológica feitas com o objetivo de pré-visualizar cenas) desenvolvidos em etapas de pré-produção, os game artists criam os aspectos artísticos de um jogo. Para isso, eles usam softwares de criação de arte digital. Os de ilustração e modelagem 3D, como o ZBrush, que imita o processo de uma escultura em argila, por exemplo, são os mais utilizados.

“Gosto muito de estudar filosofia e história da arte e busco passar isso para os alunos de forma didática. É imprescindível que o artista saiba ler o briefing e identificar os aspectos visuais e culturais de uma determinada época ou de uma nacionalidade. É preciso saber que detalhes estéticos remetem à época medieval europeia ou o que faz aquele personagem ser identificado como um antigo romano, por exemplo”, diz o professor.

Os game artists essencialmente trazem à vida o que foi imaginado na fase inicial de criação do jogo pelos game designers.

Os diferentes tipos de game artists (ou artistas de jogos)

Todo projeto de game tem um cronograma e uma documentação de pipeline (produção) extremamente detalhados.

Destrinchando ainda mais o processo de desenvolvimento de um game, o projeto é “quebrado” entre especialistas de uma equipe. Vamos focar nas possíveis funções que um game artist pode desempenhar em um time.

Concept Artist

Como mencionamos anteriormente, o concept artist desenvolve o conceito visual dos elementos de um game. Ele tira as ideias do papel usando ilustrações, aquarelas ou arte digital a partir das informações trocadas entre ele, o game designer e outras pessoas envolvidas no processo de construção de um jogo.

A função desse profissional é criar um estilo claro para que, quando o game começar a ser produzido, todas as pessoas envolvidas no processo sigam o mesmo caminho visual e tudo fique harmônico. Ele define o guia de estilo que combina todos os elementos do universo de um jogo. É a identidade visual de tudo que será construído com detalhes artísticos dos objetos e de cada personagem, como paleta de cores, roupas, texturas e etc.

Character Artists

Artistas de games 3D, ou 3D game artists, geralmente começam a carreira como generalistas e podem se tornar especialistas em determinados elementos de um jogo. Um deles são os personagens.

Um 3D character artist modela e dá realismo, identidade e estilo aos personagens. Ele pode ser especialista em textura de peles, em criar pelos de animais, por exemplo.

Daniel dá o exemplo de um monstro que criou ao receber o briefing do concept artist de um projeto que está trabalhando atualmente. Esse personagem tinha a boca aberta e o professor confirmou com o colega se o monstro teria aquela aparência sempre ou se precisaria desenhá-lo também com a boca fechada. E, sim, teria. O concept artist parceiro de Daniel nesse projeto esclareceu que o personagem tem o maxilar deslocado, e essa característica se mantém por todo o jogo.

Saber isso e detalhes de movimentação dos personagens é importante também porque em seguida acontece outra fase de execução. Outro artista – o Rigger – vai fazer os ossos e animar (rigging). Só depois o animador vai movimentar aquele personagem. O rigger é preparador. Deixar pronto para executar da melhor maneira possível.

Environment Artists

São eles que criam paisagens de fantasia – masmorras assustadoras e terrenos baldios sombrios – e lugares do mundo real, como escritórios, montanhas, fábricas, estradas. Eles geralmente começam com arte 2D criada por um concept artist e a transformam em um ambiente crível em 3D.

Lead

Bom, como o nome diz, é um líder de uma equipe. Nesse contexto, o lead é quem cuida dos processos técnicos. Daniel explica que, para ser um lead, é preciso já ter sido artista 3D de games por muitos anos. Ou seja, é alguém sênior que carrega uma bagagem profissional de peso e muita experiência em resolver problemas. Mas também já deve ter trabalhado em projetos de jogos triple A, ou “AAA”, um conceito que diz respeito a games com altíssimo investimento financeiro – passando de milhões de dólares.

Habilidades de um game artist

Game artists são habilidosos em muitos aspectos do desenvolvimento de jogos. Sendo um generalista, é possível trabalhar em diversas fases de um projeto de games, mas normalmente os game artists se especializam em uma delas de acordo com suas habilidades e interesses pessoais.

Soft skills: jogos são produzidos por equipes. Portanto, a comunicação e as habilidades interpessoais são essenciais para ajudar no bom andamento da produção. Logo:

  • Boa comunicação: O estereótipo de profissionais da área serem introvertidos é ainda uma realidade, mas as demandas da indústria que escalonam a produção entre diversas equipes, exige que os profissionais quebrem essa barreira. “A má comunicação pode colocar em risco todo um projeto”, afirma Daniel.  Todo projeto usa alguma plataforma de comunicação como Slack ou Discord ou uma planilha para seguir o cronograma de tarefas. E isso é importante para mapear onde há gargalos e onde aconteceu algum tipo de erro que vai impactar a entrega dos trabalhos, que é sinalizado pela comunicação entre os membros da equipe. E por comunicação, então, seja verbal  ou escrito é fundamental.

Hard skills: o interesse pessoal pode levar o profissional a explorar as habilidades técnicas, mas um curso na área torna mais consistentes conhecimentos que precisa dominar, como: 

  • Luz e sombra, perspectiva, acabamentos de materiais.
  • Compreensão avançada da linguagem visual - textura, cor, dimensão, escala, perspectiva, sombra, profundidade de campo da composição, proporção, consciência espacial, etc.
  • Habilidades de desenho, capacidade de visualizar e projetar a partir de ideias abstratas.
  • Sólido conhecimento de gêneros de jogos e últimas tendências em jogos.
  • Talento para contar histórias visuais.
  • Habilidades de modelagem 3D.
  • Conhecimento de animação 2D e 3D e familiaridade com os princípios da animação.
  • Conhecimento prático de software padrão da indústria e desenvolvimento profissional contínuo.

Quanto ganha um game artist?

Um profissional júnior, trabalhando CLT em uma empresa, pode começar ganhando de R$ 1.500 a 2.500. Um ponto que Daniel chama atenção é que nem todas as empresas oferecem planos de crescimento de carreira, por exemplo.

Um profissional sênior pode ganhar a partir de R$ 8.000. São trabalhos que geralmente exigem a presença dos profissionais, dado os níveis de confidencialidade e necessidade de comunicação, mas trabalhos remotos também são comuns. Empresas de outsourcing de games estão se tornando cada vez mais comuns no país como a holandesa Guerrilla Games, a Sony, Puga e Diorama. Elas contratam profissionais brasileiros que desenvolvem projetos para games mundiais.

Outra possibilidade de carreira é desenvolver personagens colecionáveis. O artista cria personagens e os anuncia em plataformas do nicho, e empresas como a Sideshow ou a XM contratam o artista brasileiro e fazem a impressão em 3D do personagem.

Como iniciar uma carreira na arte do jogo?

Para Daniel, não tem erro: o profissional precisa ter um bom trabalho e estar presente nas redes sociais. Ele chama a atenção para a necessidade de se dedicar aos exercícios dados em suas aulas e a fazer trabalhos autorais.

Publicar esses trabalhos no Instagram, de maneira mais informal, conforme o projeto está em evolução é uma de suas dicas. Outra é manter o portfólio atualizado na plataforma Artstation.

Daniel é professor há alguns anos e divide seus alunos em dois grandes nichos: jovens e pessoas acima de 30 anos que querem migrar de área. E ele é categórico em afirmar que dentre os adultos há muitos talentos a serem lapidados. Geralmente, são pessoas com muita vontade de que esse passo dê certo e se dedicam bastante em exercícios e no desenvolvimento de portfólio autoral. Não é incomum ver pessoas migrando de carreira e que já conquistaram o primeiro emprego em 6 meses.

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